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Acidade sobre o abismo
Numa das minhas viagens por esses vilarejos remotos, durante uma convalescença, adquiri o vício da escrita; atividade absorvente e inútil; “a aranha tece a teia sem esperança de capturar sua presa.” Depois de contrair tal enfermidade tive que abandonar o hábito de vagar pelo continente insólito e estabelecer uma eficaz rotina de literato de subúrbio. Passei a construir pequenas vilas de papel e tinta, ainda mais remotas do que aquelas que eu havia percorrido; como um incansáv

Daniel S. Santos
21 de jul.
A Vila da Poeira
“Hei!, hei!”, eu ouvi a voz atrás de mim. Virei-me e uma cabeça muito grande se aproximava. Uma boca desenhada por enormes lábios vermelhos se abriu diante dos meus olhos estarrecidos. “Sabe onde fica a casa do escritor recluso?”, a boca perguntou. “Já ouvi falar desse escritor maldito mas nunca soube onde fica a sua casa”, eu respondi de uma maneira meio dissimulada. Passou-se um instante. A imensa boca voltou a falar: “Aqui não é a Vila da Poeira?”, “Não sei onde fica essa

Daniel S. Santos
7 de jul.
Fantoches adormecidos
Fui encarregado de escrever um livro que mudará o mundo. As pessoas precisam disso e alguém com muito dinheiro paga aos homens de imaginação para escreverem livros assim. É isso que faço neste quarto de hotel. Curiosamente não sei quem me contratou. Escrevo um monte de asneiras e o emissário desse misterioso mecenas me diz que o meu trabalho está perfeito; amanhã o mundo será feito à imagem e semelhança do meu livro estapafúrdio. À tarde quando termino o meu trabalho o emissá

Daniel S. Santos
26 de jun.
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