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A Vila da Poeira

  • Foto do escritor: Daniel S. Santos
    Daniel S. Santos
  • há 6 horas
  • 2 min de leitura

“Hei!, hei!”, eu ouvi a voz atrás de mim. Virei-me e uma cabeça muito grande se aproximava. Uma boca desenhada por enormes lábios vermelhos se abriu diante dos meus olhos estarrecidos. “Sabe onde fica a casa do escritor recluso?”, a boca perguntou. “Já ouvi falar desse escriba apócrifo mas nunca soube onde fica a sua casa”, eu respondi de uma maneira meio dissimulada.

Passou-se um instante.

A imensa boca voltou a falar: “Aqui não é a Vila da Poeira?”, “Não sei onde fica essa tal Vila da Poeira”, eu falei e dei uns passos muito ágeis que iam se afundando numa cortina de terra muito fina que se levantava no ar e envolvia o meu corpo.

Fui pela estrada sem olhar para trás. Na curva da cachoeira voltei a encontrar a enorme cabeça que me alcançava e mais uma vez tive que lidar com as suas insuportáveis e impertinentes perguntas: “Hei!, me fala onde fica a casa do escritor recluso.” No mesmo instante eu entendi que seria difícil me desvencilhar daquele inconcebível interlocutor. “Tá bom, tá bom, pode me acompanhar”, eu falei e fui retomando o passo num ritmo ainda mais alucinante. Na outra curva a minha casa apontou na corcova do morro. Entrei pela estradinha vicinal, subi os degrauzinhos de escada sob as sombras da enorme figueira e me detive no alpendre.

Olhei para trás e a cabeça muito grande vinha ofegante no final da curva. Aguardei a aproximação e finalmente quando a cabeça chegou olhei bem fundo nos olhos cansados dela e fui dizendo sem me importar com a reação que ela pudesse ter: “você é muito insistente.” Girei a chave na maçaneta da porta e entrei. A cabeça hesitou por um momento, depois veio atrás subindo os degraus com alguma dificuldade.

A sala estava uma balburdia. Eu passei os últimos dias andando pelas ruazinhas da Vila da Poeira atrás de alguma estória que eu pudesse contar e só agora no meu último retorno encontro essa cabeça pela estrada e percebo no derradeiro instante que pode surgir daí um magnífico relato com todas as peripécias sutis que sou capaz de imprimir nessas pequenas crônicas com personagens inusitados.

Virei-me para a enorme cabeça: “Mãos à obra, não é mesmo?”, eu disse sem que ela pudesse me compreender com minúcia.

Fui caminhando lentamente até a escrivaninha sob a janela que descortinava a paisagem seca sob umas nuvens que iam se apagando. A Vila da Poeira surgia lá no fundo dentro de uma faixa de luz amarelada.

Sentei-me com a estória borbulhando na cabeça e comecei a escrever.

 
 
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