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Fantoches adormecidos

  • Foto do escritor: Daniel S. Santos
    Daniel S. Santos
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 23 horas



Fui encarregado de escrever um livro que mudará o mundo. As pessoas precisam disso e alguém com muito dinheiro paga aos homens de imaginação para escreverem livros assim.

É isso que faço neste quarto de hotel. Curiosamente não sei quem me contratou. Escrevo um monte de asneiras e o emissário desse misterioso mecenas me diz que o meu trabalho está perfeito; amanhã o mundo será feito à imagem e semelhança do meu livro estapafúrdio.

À tarde quando termino o meu trabalho o emissário vem e recolhe as páginas escritas. De noite saio pela cidade e reparo nos diálogos entre os passantes. É muito curioso reconhecer nas conversas de estranhos uma frase que formulei no livro e que de alguma forma já circula pelas ruas.

“Ainda não é suficiente para causar mudanças profundas”, me diz o emissário, “mas isto é apenas uma questão de tempo”, conclui com a segurança de quem conhece o seu ofício.

Percebo que aos poucos os discursos de quem passa se tornam irredutíveis como se fossem elaborações próprias. Nos meus passeios pelas ruas presencio discissões acirradas sobre temas que eu havia imposto previamente. Eu nunca interfiro nos diálogos pois isto, a rigor, se transformaria num monólogo.

“Essas audições são muito importantes para eu saber que rumo darei ao livro e que efeito devo provocar no leitor”, eu penso, “passo desapercebido entre a multidão que manipulo como se manipula marionetes inconscientes”, eu pensei esboçando um meio sorriso de deboche.

Vou pela rua na direção do bar onde costumo beber a minha cerveja. Caminho entre os homens como um deus. Um deus como ele deve ser; desconhecido, inacessível e sem nome, ao contrário dos muitos nomes que lhe atribuem os cabalistas.

Encaro este meu ofício de escrever um livro que mudará o mundo de maneira jocosa, deixando que os meus contratantes pensem que realmente sou um desmesurado erudito.

Termino de beber o meu último copo de malte e volto para o meu apartamento. Abro a porta do quarto e sento-me à escrivaninha.

Faço algumas correções no livro baseadas nas últimas impressões que tive observando as máscaras e esgares dos personagens do bar.


Me levanto e me aproximo da janela. Lá fora sopra uma brisa que faz a cortina ondular levemente.

Olho lá embaixo; caminham de um lado para o outro os meus queridos fantoches adormecidos.toches adormecidos.

 
 
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