Artefatos suspensos
- Daniel S. Santos

- há 6 horas
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Mandaram construir a torre na beira do rio. Aliais, o canal fora rasgado na areia escaldante um ano antes, quando, por fim, instalaram a comporta; quando a água chega no volume máximo a barragem se abre e arrasta tudo com uma inconcebível virulência.
Os construtores, mal terminada a obra, desapareceram sem deixar vestígios. Ficou a torre com suas celas dispostas de ambos os lados de intermináveis corredores.
Depois de tudo pronto começaram a chegar os prisioneiros. Vinham pelas trilhas riscadas nas dunas que se perdiam de vista. Curiosamente ninguém os obrigava a seguir por aquele caminho que levava diretamente aos cárceres da torre.
Entravam pela enorme porta envidraçada, iam pelos corredores, escolhiam uma das masmorras e nunca mais eram vistos pelo lado de fora. Os viajantes que passavam pelas trilhas nas noites mais intensas ouvia gritos vindos lá de dentro.
Eu fui um dos últimos a chegar. Ocupei a cela 33 e fico na minúscula janela olhando lá embaixo a água escorrendo pelo canal. “Espero a minha vez de ser jogado lá dentro”, eu fico pensando. Fico imaginando meu corpo sendo arrastado pela corrente.
Num dia chegou um novo prisioneiro, um dos poucos a virem depois de mim. Entrou na sua cela e ficou lá dentro por uns dias, depois começou a confeccionar uns artefatos coloridos que ele ia dependurando pelos corredores da prisão. “É a minha singela contribuição ao mundo das esculturas”, ele dizia, coisa que eu não podia concordar, dado o meu modo de ver a arte; eram objetos e jamais foram esculpidos pra se tornarem aquilo que o seu autor supunha que fossem.
A despeito desse meu senso crítico que desenvolveu um olhar extremamente aguçado através dos anos num dia de manhã, de forma abrupta e inesperada, tomei posse dos materiais que o prisioneiro utilizava para compor as suas peças e comecei a confeccionar os artefatos que eu, pessoalmente, não ousava qualificar de “esculturas.”
Me parece que eu tinha alguma destreza para aquele trabalho; depois de alguns dias os corredores da prisão estavam repletos com as minhas ‘‘esculturas”, como eu passei a denominá-las de forma incorreta como o primeiro prisioneiro fazia. Dependuradas no teto se moviam calmamente tocadas por um vento leve que atravessava a torre de um lado a outro.
O prisioneiro que me precedera na confecção dos artefatos suspensos abandonou o ofício e passou a vagar pelos corredores detendo-se em cada cela contando estranhas estórias para os detentos que ouviam incrédulos sem demonstrar muito interesse no que ele dizia; a sua voz ia quase se apagando ao atravessar as grades dos cubículos para se perder na poeira das dunas.
Um dia o prisioneiro que iniciou aquela atividade dos artefatos suspensos, e que não se cansava de me surpreender, apareceu com uma câmara de filmar e saiu colhendo imagens estonteantes das cenas que se desenrolavam dentro dos calabouços; uma expressão de angustia e fúria estampada no rosto de cada personagem. Eu acompanhei alguns desses momentos em que ele focava aquela geringonça na direção dos enclausurados dominados por uma irresistível inquietação.
Uma tarde ouvi o ronco de um motor. Um caminhão parou na frente da torre. Dois homens uniformizados entraram e recolheram as esculturas suspensas. Um deles foi até a cela do prisioneiro que dera início àquela balburdia e arrancou a câmara de filmar das suas mãos.