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Morando dentro do conto

  • Foto do escritor: Daniel S. Santos
    Daniel S. Santos
  • há 11 horas
  • 2 min de leitura

Vou escrever um conto e viver dentro dele. Andar pelas ruazinhas da pequena cidade que ele comporta; virar uma esquina, deter-me na portaria do pequeno prédio, subir as escadas até o terceiro andar. Girar a chave na porta e entrar.

Vou andar até a escrivaninha debaixo da janela e começar a escrever um conto.


“Oblose morava na rua da ponte e costumava vir à tarde na minha casa me importunar. Na verdade passava as tardes inteiras me incomodando com suas ideias idiotas.

Eram discursos intermitentes e desconexos que se prolongavam dentro do calor insuportável que fazia e sem que eu lhe desse o menor sinal de que aquilo me agradava ele ia continuando.

Um dia veio com uma estória meio mirabolante que consegui distinguir no meio da sua fala esdrúxula: ‘Havia um cara que tomou a insólita decisão de morar dentro de um conto’, ele começou a dizer, ‘o cara escrevia coisas que iam jorrando lá de dentro do conto sem que nada pudesse deter a fúria das palavras que vinham chegando. Palavras brotando de dentro de palavras como água jorrando de uma fonte límpida. Num dos contos Vlaze vem me fazer mais uma das suas insólitas visitas. Atravessa a ponte, com passos lentos vai passando pelas ruazinhas estreitas até chegar na frente da minha casa. Nos seus movimentos em slow motion ele vinha preparando as asneiras que ia me dizer.

Fui recebê-lo no alpendre depois de ter ouvido o portãozinho estridente se abrindo: ‘Olha, eu vou escrever um conto e morar dentro dele’, ele me disse.”

Depositei a caneta no tampo da escrivaninha e me levantei para sair. Desci os três lances de escadas, atravessei a portaria sob o olhar enviesado do zelador e saí pra rua na direção do rio. Caminhei com passos rápidos. Ofegando em cima da ponte eu gritei: “Oblosi, Vlaze!” Ninguém me respondeu

Voltei à minha mesa de trabalho com um sentimento confuso indo de um lado pro outro dentro de mim como alguém andando por um corredor sem saber que direção tomar.

Comecei a ler o que havia escrito; demorou muito tempo para eu entender qual dos personagens iria escrever um conto e morar dentro dele.

 
 
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