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O décimo terceiro anjo

  • Foto do escritor: Daniel S. Santos
    Daniel S. Santos
  • há 6 horas
  • 2 min de leitura

O gato estava na janela olhando as sombras da noite indo e vindo de um lado pro outro da rua. O seu olhar desolador sobre aquelas figuras atormentadas justificava o nome do filósofo com o qual lhe nomeei: “Schopenhauer.”

Aquela semana se revelava especialmente difícil o que acentuava a minha adesão ao pensamento amargo do filósofo que se isolara do mundo tendo como companhia apenas o seu cão. “Eu fiz o mesmo”, eu penso, “apenas com a singela diferença de que o animal que me acompanha seja um gato e não um cachorro.”

Ontem apareceram dois homens me procurando aqui no terceiro andar. De muito mal humor eu os recebi. Indiquei-lhes o sofá de dois lugares no canto da sala onde se sentaram com certo desconforto. Ficaram sussurrando no ouvido um do outro como se tentassem resolver uma pequena divergência quanto ao assunto que deveriam tratar comigo.

Finalmente um deles se levantou e veio na minha direção.

“Viemos te contratar para destruir uma cidade. Ou pelo menos uma parte dela”, ele disse. “O coração da cidade, precisamos que você destrua o coração da cidade”, o outro completou.

“Tenho a impressão de já ter passado por isso eu pensei sentado lá na poltrona debaixo da janela enquanto estudava os mapas que eles haviam providenciado. Às vezes desviava o meu olhar para a rua desolada lá embaixo; as criaturas asquerosas que iam e vinham de um lado para o outro sem encontrar a saída me faziam sentir asco e amargura.

No outro dia bem cedo apanhei a mala com os detonadores e saí para cumprir a missão que me fora confiada.

Fui caminhando, entrando por ruas que me levavam cada vez mais para dentro da cidade. Entrei por uma parte que eu desconhecia. Uma arquitetura insólita foi surgindo. Atravessei um portal. Conferi o mapa pela última vez e tive a certeza de que estava do lado de dentro daquele emaranhado inútil. “É o coração da urbe como eles disseram”, eu pensei. Dei mais alguns passos contornando um belo palacete de vidro e uma brusca mudança aconteceu: pousei a maleta no chão sentindo que eu carregava algo inútil:

Estava tudo devastado. Sem que eu tenha acionado um detonador sequer. Só havia ruínas. “Um outro mestre das implosões se antecipou a mim”, eu pensei, e saí andando entre o entulho.

Voltei para casa atordoado, guardei a maleta com os explosivos no armário e me deitei para dormir.


Ontem eu estava em casa lendo um filósofo hermético naquele dia quando bateram à porta. Li mais algumas linhas sem compreender nada e fui abrir já sentindo a impaciência de quem esperava do lado de fora.

Eram os dois homens do outro dia. Abri a porta e indiquei-lhes o sofá de dois lugares no canto da sala.

“Viemos te parabenizar”, um deles falou.

“Parabenizar pelo quê? Eu não fiz nada. Estava tudo destruído”, eu disse.

“Você se engana. O seu trabalho foi excelente”, falaram os dois ao mesmo tempo.

Enquanto se levantavam para sair ainda me dirigiram um último olhar cujo significado ainda guardo dentro de mim sem a audácia necessária para decifrá-lo.


Tranquei a porta e corri para o armário. Abri a maleta com estúpida brusquidão: estava vazia

 
 
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