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Uma lufada de vento na janela

  • Foto do escritor: Daniel S. Santos
    Daniel S. Santos
  • há 16 horas
  • 2 min de leitura

Desci a escada me desviando dos vultos que vinham do outro lado como uma pequena avalanche na minha direção. Mesmo com o esforço que eu fazia para me desvencilhar às vezes uma daquelas manchas negras perdidas dentro do escuro me atingia em cheio, ou, pelo menos, me fazia desequilibrar e errar o passo que eu dava para atingir o próximo degrau me deixando prestes a me espatifar no mármore áspero do chão.

“Eu crio estórias. É isso que faço aqui. Escrevo estórias para serem lidas pelos desatentos”, o outro disse. Ele veio vindo quando eu já estava próximo da porta de saída; ele não era um vulto nem nada, não era uma sombra como as outras, dava pra ver bem o seu rosto coberto por uma certa perspicácia iluminando o escuro.

Quando voltei pro quarto eu fiquei pensando naquilo. Depois de alguns instantes eu já havia me esquecido da cena. Até mesmo o rosto do outro, com traços evidentes de sagacidade, foi se esboroando num abismo sombrio dentro de mim.

Dei uns três passos, me postei debaixo da minúscula janela e fiquei me deliciando com o vento morno que descia do Morro das Orquídeas fazendo pequenas ondas entre as casas baixas. Mais adiante a corrente de ar ia subindo, contornava algumas torres adornadas com pequenas janelinhas recortadas na fachada e chegava (um pouco arrefecida, mas esboçando ainda uns restos de voracidade) ao lugar onde eu estava.

Aquilo me deixava pensando, mesmo que eu não pudesse compreender muito bem o que se passava pela minha mente; imagens cheias de turbulência e sentimentos desconexos espocavam dentro de mim, tudo se misturando a imagem do Morro das Orquídeas lá fundo.

O vento vinha chegando, roçava a quina da torre e escoava para dentro da minha cela.

“Há quantos dias eu estou aqui.” Esta era uma pergunta que eu me fazia constantemente tendo a certeza de que eu jamais poderia respondê-la. Depois de cada esboço frustrado de resposta a arguição continuava.

Por fim eu acabava me contentando em ficar na janelinha contemplando o morro lá no fundo da paisagem, especialmente quando uma faixa de luz vermelha cortava a sua borda de um lado a outro no fim de tarde.

Eu mencionei o rosto perspicaz e as sombras que subiam pelo corredor. Mas isso já faz muito tempo. Eu já não desço lá embaixo. Me proibiram que eu descesse lá.

Veio um homem um dia. Era auto e magro. Usava um uniforme e foi falando: “A partir de hoje você não desce lá embaixo.”. “Está bem”, eu disse. O que mais eu poderia dizer? Foi só isso que eu falei e o homem foi se embora.

A partir desse dia fiquei na janelinha tomando vento e espiando o Morro das Orquídeas lá no fundo mergulhado numas luzinhas coloridas que despencam do céu quando a noite começava a chegar.

 
 
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