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Um olho pensando

  • Foto do escritor: Daniel S. Santos
    Daniel S. Santos
  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

Querem que eu pense. Há pensamentos por toda parte e é preciso que eu os reproduza de alguma forma; apenas não querem que eu pense os meus próprios pensamentos.

Abro a porta da sala e saio para o alpendre. Fico entre as pilastras de cores vibrantes pensando. Atravesso o pequeno jardim sentindo o perfume intenso das rosas.

Abro o portãozinho, saio para a rua e vou refletindo sobre esse tema. Eu sei que é impertinente da minha parte esse tipo de coisa; sair pela calçada desatento de tudo que há em volta, profundamente atento ao que há dentro de mim.

Vou passando por casas baixas de janelas muito estreitas; um filete recortado na alvenaria onde cabe apenas um olho que me observa lá de dentro.

O olho pisca, lacrimeja, mas não pensa, apenas vigia os meus passos sobre a calçada muito interessado nos movimentos que eu vou fazendo.

Viro uma rua e continuo caminhando. Olhos grudados nas janelas que vão surgindo me observam. Olhos que pensam; “ele não deveria estar ali caminhando pela calçada e pensando.” Olhos que já não veem apenas pensam. Muitos olhos grudados nas frestas da persiana pensando coisas desprezíveis enquanto me veem passar.

Dou a volta no quarteirão e retorno pela outra rua; “Aqui não há nenhum olho vigiando os meus passos e nem mesmo pensando coisas que lhe disseram para pensar”, eu penso caminhando cada vez mais devagar entre a rua e a sarjeta.

Abro o portãozinho que faz um ruído estridente. Atravesso o roseiral sentindo o perfume áspero das pétalas. No alpendre não dou a menor atenção ao colorido das pilastras. Destranco a porta da sala e entro.

Me fecho no quarto e enfio o meu olho bom no vão estreito da janela. Lá fora os olhos, muitos olhos espreitam grudados do lado de dentro das fachadas. Me sento na minha poltrona favorita e fico pensando; “que audácia da minha parte; neste momento sou mais audacioso do que os maiores audaciosos; aqui no meu pequeno monastério eu estou pensando e nem o Grande Olho poderia me espionar.


Os pequenos olhos entre as frestas do outro lado da rua nada podem ver.”

 
 
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