Carta fora do baralho
- Daniel S. Santos

- 3 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Estou dentro de um pensamento pensando. Há um cubículo e pelas paredes lisas vazam cartas de baralho que se misturam umas nas outras quase grudadas; é difícil escolher uma. É preciso me inclinar com a cabeça voltada para trás e deixar que o fluxo de naipes escorra pela minha garganta. Depois disso nada faz sentido e “eu tenho o tarô inteiro à minha disposição entre os meus dentes”, eu penso.
É preciso acusar os cretinos de plantão lá fora que dizem que eu usurpei as cartas e tenho agora o sentido do jogo à minha disposição. “Não é bem assim”, eu digo, “não é fácil engolir o baralho inteiro”, “e ainda assim, sem ânsia de vômito nenhuma”, eu digo
Amanhã virá um interlocutor. (isso eu sei pelo movimento do carteado sob a minha língua) Esse personagem vai se sentar na minha poltrona predileta sob a janela olhar bem dentro dos meus olhos e dizer estupefato num tom cheio de censura que eu engoli o baralho inteiro.
“Gente!”, eu vou murmurar cheio de perplexidade. “Eu ter engolido as cartas é questão de foro íntimo”, eu vou dizer e pedir ao personagem que me dê licença da minha poltrona predileta para que eu possa me sentar e dispor a ordem da partida sobre a mesinha do lado.
Depois das coisas se desenrolarem da maneira que eu havia prescrito, o importuno personagem já havia se retirado, pousei o baralho sobre o forro em arabesco e fui pro quarto dormir.
Hoje eu acordei numa imensa indisposição de engolir cartas e dispô-las numa sequência infalível indicando a ordem dos fatos que se seguirão; vou deixar que as cenas se desnovelem por si mesmas sem a minha meticulosa interferência de prestidigitador hábil manejador de baralhos.
Durante a tarde fiquei vasculhando gavetas e conferindo tiras de papel onde eu havia escrito, um dia, pequenos relatos numa letrinha miúda.
Ao ler aquilo encontrei um recorte onde eu engolia cartas. “Mas isso foi ontem”, eu pensei, “Não, não foi ontem, já faz muito tempo”, eu pensei. Guardei os recortes na gaveta e desci para a rua. Saí andando pela calçada; a ordem das cenas que me atravessavam parecia de um grande equívoco onde eu sempre me desencontrava como se eu deslizasse fora do compasso entre os fatos como um Valete pouco precavido ou um Ás de Espadas cheio de infrutífera astúcia.
“Hei! Você é o cara que engoliu o baralho”, alguém gritou lá do meio da multidão. “Ninguém sabe que eu engoli porra de baralho nenhum”, eu pensei, “como é que alguém grita isso bem aqui no meio da rua me expondo a essa corja de aflitos?” “Não engoli porra de baralho nenhum não”, eu devolvi o grito e saí pela calçada saltitando como um Três de Paus.
“Isso tudo já passou”, eu fico pensando sentado na minha poltrona predileta dilacerado pelo calor insuportável da tarde.
Agora quando vou pela rua os transeuntes se entreolham e amargam um silêncio constrangedor que se insinua entre o colorido das pilastras e parece dizer: “Esse é o cara que dava as cartas por aqui.”
Eu percebo a intenção daqueles olhares aos quais eu dedico um monumental desprezo; “eu sei que eu ainda tenho, nas mangas, todas as cartas do jogo e poderia usá-las a qualquer momento”, eu fico pensando dentro do pensamento. Mas também! É evidente! Ainda tenho todas as cartas entre os meus dentes” eu digo lá embaixo quando vou caminhando entre a sarjeta e a marquise. Do beiral escorre uma água suja que havia se acumulado depois da chuva.
Inclinei minha cabeça para trás, a boca escancarada bem debaixo de uma nuvem escura que ia se esvaindo. Com o solavanco dos passos que eu dava as cartas iam saindo, faziam um caminho no azul do céu pra se perderem numa nuvem turva que ameaçava desabar sobre a minha cabeça; em meia hora eu havia perdido o jogo.