Marionetes e marionetistas
- Daniel S. Santos

- 6 de jan.
- 3 min de leitura
Eu vim me equilibrando na linha do meio-fio. Parei na frente da casa. A porta se abriu. No buraco escuro e vazio a que deu lugar apareceu uma enorme cabeça, banhada por uma luz intensa, movendo os lábios como se alguém lá dentro, exímio marionetista, lhe dessa vida através de finos fios de seda cortando a penumbra do ar.
A rua estava vazia. Havia apenas um silêncio acompanhado do murmúrio do rio resvalando nas colunas da ponte. Depois, a cabeça sussurrou algumas palavras que não compreendi e retrocedeu na escuridão da sala. Dei mais alguns passos e atravessei os portais. Foi como entrar num palco absurdo onde se representava uma cena; muitas cabeças grandes e iluminadas presas a fios muito finos se lançavam na altura do teto numa dança espalhafatosa desprovida de corpos e membros. “A grotesca casa de todos os Golens”, eu pensei. Notava-se numa corda uma fremir suave; uma boca se abria, um olho fechava a pálpebra, um sorriso amargo se insinuava como numa pintura de expressão.
Sentei-me numa cadeira que parecia ter sido reservada para mim e fiquei assistindo tudo como se eu fosse o único espectador da primeira fila. Mas a minha presença ali parecia ter um sentido mais amplo, eu sentia que uma participação mais evidente me seria exigida em breve.
“Agora vamos começar o espetáculo”, eu ouvi a minha própria voz dizer num timbre levemente equivocado.
“Pelo que vejo os marionetistas estão prontos para iniciar os trabalhos”, eu falei baixinho.
“Preciso que os atores se concentrem e sigam com exatidão cada movimento das cordas”, a minha voz continuava como se eu fosse um experiente diretor de cena em ação “mas eu nunca entrei num teatro, nem mesmo assisti peças em abundância o que me qualificaria a me tornar um diretor de cena”, eu pensei enquanto caminhava na direção de uma cabeça absolutamente inexpressiva na intenção de repreendê-la; ela me parecia mal posicionada dentro do tablado e sem nenhum interesse no que eu tentava lhe transmitir para que pudesse desempenhar o seu papel com perfeição.
Um sentimento veio até mim como a cabeça enorme à porta da primeira vez. O sentimento transformou-se em pensamento: “Estou farto de marionetes e marionetistas”, esse pensamento saltou para dentro do meu cérebro como fazem os trapezistas no início da apresentação. A cabeça enorme que me recebeu no espaço escuro e vazio deixado pela porta ao se abrir pareceu exercer, mais uma vez, os dons intuitivos daqueles que vivem na clausura urdindo a fuga. Não sei se foi a frase do primeiro dia, se é que houve alguma frase dita no primeiro dia, mas agora pude ouvir do enclausurado com clareza apesar do sussurro quase apagado: “O espetáculo tem que começar”, “vamos fazer que entre no teatro o diretor de cena”, a voz continuou, “ele virá pela calçada num dia de chuva, contornará a rampa de acesso com passos curtos e lentos até a porta de entrada”, a voz falou. Depois disso percebi que as palavras saíam da minha própria boca para se perderem num emaranhado de frases de difícil compreensão, embaraçadas em linhas contorcidas até um limite insuportável: “A porta vai se abrir e uma cabeça enorme iluminada por uma luz coruscante receberá o diretor de cena demonstrando todo interesse nas orientações relativas ao espetáculo prestes a começar. Os fios invisíveis presos ao personagem que veio caminhando na linha do meio fio se moverão sob o ar denso da sala e a boca esboçará um sorriso. “Eis o nosso diretor de cena”, dirá uma voz de ventríloquo vinda do fundo do palco.”
“Vamos começar o espetáculo”, eu ouvi uma voz dizer (quase sumida lá no fundo) e saí caminhando sobre o tablado sentindo os fios de seda se moverem sobre a minha cabeça.