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O prisioneiro

Foto do escritor: Daniel S. Santos
Daniel S. Santos
16 de set.
2 min de leitura

“Você é o prisioneiro da cela 1233”, uma voz esganiçada saída de um pequeno megafone escorreu para dentro do quarto. “Bem, eu agradeço a informação. Eu nem sabia que era um prisioneiro”, eu pensei, dando os passos encolhidos de contumaz usuário de barbitúricos.

Fui até a pequena janela no alto da parede para ouvir melhor a voz que saía do megafone. Subi num móvel imprestável que havia num canto e enfiei a cabeça na minúscula abertura. O meu esbugalhado olho bom viu um céu denso recortado por imensas torres de concreto; das pequeninas janelas pendiam cabeças de olhos estúpidos observando as nuvens.

“Há muitos prisioneiros aqui”, eu pensei. O imprestável móvel ameaçou ruir e me despencar lá de cima enquanto eu tentava tirar a minha cabeça do minúsculo buraco. Na minha retina o susto ampliou as linhas da paisagem insólita.

Desci do móvel com alguma dificuldade e me sentei no chão áspero da cela. Continuei ouvindo o megafone cuja voz repentinamente adquirira uma desagradável vibração e narrava com detalhes os meus hediondos crimes, os excessos e requintes da minha crueldade.

Apanhei um caco de cerâmica e fui riscando no reboco da parede aquelas insinuações. Interrompi o meticuloso trabalho de escrita e rolei na pedra fria da cela sonhando com a minha suposta vida de delinquente.

Nos fins de tarde eu via extinguir-se a réstia de luz que entrava pelo vão da janelinha. Num dia caminhei por um corredor que se abriu abruptamente no canto da cela. Entrei por ele com passos rápidos tentando me desvencilhar da masmorra em que fora confinado. O caminho adquiriu uma forma espiralada e me levou de volta ao mesmo ponto do calabouço onde eu me encontrava. Novamente meu corpo girou sobre si mesmo e rolou na pedra fria do chão.

Há alguns anos numa cidadezinha perdida no continente aprendi os rudimentos da escrita o que me permite imprimir com o caco de porcelana no rés do chão as estórias dos meus crimes que a voz rouca do megafone vai narrando. Num deles decepo com perícia e fúria a cabeça enorme de um oponente, noutro, sob o olhar cúmplice de supostos asseclas descarrego com violência a minha malignidade sobre o corpo de um inocente. Presumíveis crimes, como eu disse, não me recordo de nenhum deles. Apenas essa voz sussurra nos meus ouvidos fatos que deveriam estar gravados na minha memória e que de alguma maneira foram apagados dali. Eu deveria me lembrar de alguma coisa mas não é o que acontece. Só o que me lembro, apesar que vagamente, é da vida turbulenta de um escritor recluso que passa os dias riscando numa parede pequenas estórias absurdas.

 
 
Um olho dentro da caixa

A caixa estava no meio da sala e não havia nada dentro; como se o vazio ocupasse o centro do mundo e eu chegasse meio de lado e descrevesse, com o corpo, um giro em volta do artefato, enfiasse o meu o

 
 
Jonas

Sou prisioneiro na décima terceira torre. A última do lado do canal. Na semana passada fui transferido para o primeiro pavimento; estou no cubículo número três que é concedido àquele que preenche os r

 
 
Uma lufada de vento na janela

Desci a escada me desviando dos vultos que vinham do outro lado como uma pequena avalanche na minha direção. Mesmo com o esforço que eu fazia para me desvencilhar às vezes uma daquelas manchas negras

 
 
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