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O demolidor

  • Foto do escritor: Daniel S. Santos
    Daniel S. Santos
  • 21 de jan.
  • 2 min de leitura

A cidade estava confusa. Adepto do ascetismo de Schopenhauer resolvi abandoná-la. Numa manhã que caía uma chuvinha fina eu parti. Contando apenas com a roupa do corpo saí caminhando debaixo da chuva. Tudo lá atrás foi mergulhando sob as nuvens escuras e espessas que vinham chegando pelo lado do rio.

Foi uma longa ausência. Ao retornar a cidade me pareceu mais estranha e vulgar do que a imagem que eu guardava na memória. As ruas entulhadas de quinquilharias que dificultavam o meu acesso; vozes confusas e esganiçadas anunciavam alguma coisa imprescindível. Eu que acabava de chegar de um lugar remoto achava inútil toda aquela parafernália.

Caminhei sem rumo por um longo tempo dentro da balbúrdia até deparar-me com uma parte conhecida da cidade, as casas de telheiros baixos iam se tornando familiares. “A partir daqui eu devo encontrar o percurso que me leve de volta à minha casa”, eu pensei. “Talvez a encontre antes que a noite caia sobre as ruas”, eu pensei

As minhas previsões não se confirmaram; não encontrei a casa. Depois de vasculhar a cidade conjecturei que a casa que eu procurava talvez não existisse mais, ou, que a cidade onde eu caminhava era outra cidade, apesar de ser muito parecida com aquela que eu trazia nos sonhos.

Voltei a errar por caminhos desconhecidos, escolhendo sempre os lugares mais inacessíveis. Depois de um longo percurso a cidade foi se desvelando; à medida que eu me aproximava a sua imagem tornava-se mais nítida; as silhuetas das construções recortadas sob o céu de fim de tarde; os personagens obscuros se ocultando dentro do concreto frio.

Enquanto eu me aproximava sentia o tremor dos meus semelhantes (nem tão semelhantes depois da minha longa ausência) resguardados pelas lajes e marquises.

“É preciso destruir a torre”, eu ouvia uma voz dizer. “Eu, o grande construtor envolvido com demolições”, eu pensei com ironia.

Eu me aproximava da cidade com passos rápidos. Enquanto ia manuseando os explosivos eu ia pensando: “Quando tudo passar vou reerguer a cidade à minha imagem e semelhança.”

Depois do estrondo uma nuvem de poeira e fumaça foi subindo na linha vermelha do horizonte se misturando lá em cima com as nuvens que vinham chegando pelo lado do rio.

 
 
Marionetes e marionetistas

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Carta fora do baralho

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Guêthie, o anjo exterminador

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