U m olho dentro da caixa

A caixa estava no meio da sala e não havia nada dentro; como se o vazio ocupasse o centro do mundo e eu chegasse meio de lado, descrevesse com o corpo, um giro em volta do artefato, enfiasse o meu olho bom num buraco da superfície e ficasse lá de dentro observando alguma coisa acontecer a partir do nada, atento ao lado de fora.
Eu cheguei do morro das orquídeas, os meus cabelos ainda recendendo o cheiro das flores de lá, os meus passos se afundando na poeira da estradinha que vem serpeando o vale até a casa azul. Depois da curva da cachoeira entrei pela trilha vicinal, subi os degraus debaixo da figueira, atravessei o alpendre e entrei na casa.
Fui contornando a caixa no meio da sala sabendo que lá de dentro um olho me observava. A imagem de um homem caminhando num cômodo excessivamente parco, desprovido de qualquer móvel ou utensílio parecia o retrato áspero da desolação.
Através da janela o Morro das Orquídeas sob as nuvens quase apagadas vai se desmanchando aos poucos. As imagens são captadas por um tubo metálico fixado rente a um dos lados do objeto que as recolhe e as deposita num canto da caixa bem perto do buraco de onde o olho espia.
O olho fica contemplando as cenas que se desgastam e vão sumindo até desaparecerem completamente numa luz muito pálida que chega amortecida por nuvens compactas que perambulam num céu cinza entre a casa e o morro das Orquídeas
Eu volto lá para fora, desço a escadinha, entro pela trilha vicinal e começo a dar passos que se afundam na poeira da estradinha, depois venho caminhando lentamente no rumo da casa. Subo os degraus da escada. Paro no alpendre e fico me dependurando entre as pilastras coloridas com os movimentos engraçados de um mentecápto. Depois entro na sala para que tudo possa se repetir. O olho dentro da caixa fica contente em focar a sua certeira luminosidade nas mesmas cenas que se repetem com incrível precisão. As mesmas imagens conturbadas e frias que ele havia visto há instantes.
Num dia de tarde, o sol caindo com extrema beleza lá atrás do morro, o olho saiu da caixa, talvez estivesse cansado de contemplar pelo buraco estreito o mundo vasto da sala e da paisagem que a janela descortina; talvez quisesse participar da trama com mais contundência. O olho ficou sobre uma mesa que havia no canto e quando eu cheguei de modo repentino, abrindo a porta abruptamente, vindo lá de fora, ofegante por ter subido os degraus com certa agilidade, o olho pareceu se surpreender com a dimensão voraz da minha imagem liberta do tubo metálico que a captava imprimindo nela severas modificações que o olho se adaptara e julgava irreversíveis.
Com extremo cuidado peguei o olho novamente, o meu olho bom, o meu olho pródigo e o enfiei no buraco da caixa. Ele ficou lá dentro olhando aqui para fora tentando distinguir a minha imagem saindo pela porta e atravessando o alpendre, o sol dardeja nas cores deslumbrantes. Depois de um longo passeio eu volto e o meu olho fica de olho nos movimentos que eu faço. Eu atravesso as pilastras (o olho me observa lá do buraco (é fácil ver uma nesga da paisagem aqui fora) entremeando as cores com o meu corpo esbelto de andarilho. Dessa vez não vou perambular pelas estradinhas poeirentas em volta do morro das orquídeas. Vou até a curva da cachoeira e volto. Entro pela trilha mais uma vez, subo os degraus encobertos pela sombra intensa da figueira e paro no alpendre com as cores amortecidas pela penumbra. Giro a maçaneta e entro na sala.
Vou me aproximando da caixa com o olho lá dentro. Eu sei que o meu olho me olha; como não saberia se é o meu olho? Tento romper a superfície da caixa e libertar quem me olha mas é tudo muito espesso, compacto e não há outra alternativa a não ser me sentar num banquinho no canto e ficar agudando. Mas esse banquinho é o mesmo que aparece em outras estórias de minha autoria onde se sentam contadores de estórias de passagem pela Vila da Poeira em busca de ávidos ouvintes de estórias curtas. É o que acontece; um homem bem baixinho, os cabelos muito curtos, uma roupa preta muito apertada e cheia de bolsos sobressalentes se senta no banco com alguma dificuldade e começa a falar:
“Olha, aconteceu há muito tempo, um olho entrou dentro de uma caixa e se recusava a sair. O dono do olho tentou arrancá-lo de lá mas não havia meios possíveis; era um olho irredutível.”
De imediato e por motivos evidentes eu já fui me interessando pela narrativa e a minha cara sem um dos olhos no buraco onde ele deveria estar fez uma expressão de indizível contentamento.