U m olho dentro da caixa
A caixa estava no meio da sala e não havia nada dentro; como se o vazio ocupasse o centro do mundo e eu chegasse meio de lado, descrevesse com o corpo, um giro em volta do artefato, enfiasse o meu olho bom num buraco da superfície e ficasse lá de dentro observando alguma coisa acontecer a partir do nada, atento ao lado de fora. Eu cheguei do morro das orquídeas, os meus cabelos ainda recendendo o cheiro das flores de lá, os meus passos se afundando na poeira da estradinha qu
Jonas
Sou prisioneiro na décima terceira torre. A última do lado do canal. Na semana passada fui transferido para o primeiro pavimento; estou no cubículo número três que é concedido àquele que preenche os requisitos necessários para estar ali. As paredes, o piso e o teto são feitos de um material emborrachado e parecem respirar feito o pulmão de uma baleia, “eu sou um pequeno verme infeccionando o órgão do assombroso animal’’, eu penso com a ironia amarga dos rebeldes encarcerados.
O prisioneiro
“Você é o prisioneiro da cela 1233”, uma voz esganiçada saída de um pequeno megafone escorreu para dentro do quarto. “Bem, eu agradeço a informação. Eu nem sabia que era um prisioneiro”, eu pensei, dando os passos encolhidos de contumaz usuário de barbitúricos. Fui até a pequena janela no alto da parede para ouvir melhor a voz que saía do megafone. Subi num móvel imprestável que havia num canto e enfiei a cabeça na minúscula abertura. O meu esbugalhado olho bom viu um céu den
Uma lufada de vento na janela
Desci a escada me desviando dos vultos que vinham do outro lado como uma pequena avalanche na minha direção. Mesmo com o esforço que eu fazia para me desvencilhar às vezes uma daquelas manchas negras perdidas dentro do escuro me atingia em cheio, ou, pelo menos, me fazia desequilibrar e errar o passo que eu dava para atingir o próximo degrau me deixando prestes a me espatifar no mármore áspero do chão. “Eu crio estórias. É isso que faço aqui. Escrevo estórias para serem lidas
Morando dentro do conto
Vou escrever um conto e viver dentro dele. Andar pelas ruazinhas da pequena cidade que ele comporta; virar uma esquina, deter-me na portaria do pequeno prédio, subir as escadas até o terceiro andar. Girar a chave na porta e entrar. Vou andar até a escrivaninha debaixo da janela e começar a escrever um conto. “Oblose morava na rua da ponte e costumava vir à tarde na minha casa me importunar. Na verdade passava as tardes inteiras me incomodando com suas ideias idiotas. Eram dis




